26 de fevereiro de 2025

Em ano com maioria de enredos afro, Paulo Barros reforça opinião contrária ao tema: ‘Não gosto’, ‘Tenho direito’


O carnavalesco da Vila Isabel disse em suas redes sociais que respeita todas as religiões e os outros profissionais, mas que não tem obrigação de falar de temas africanos. A Vila Isabel é uma das três escolas que não vai falar sobre religiões de matriz africana no carnaval 2025. Paulo Barros diz que não gosta de enredos com temática africana
O carnavalesco da Vila Isabel, Paulo Barros, causou polêmica nesta terça-feira (25) ao fazer novas críticas aos enredos com a temática africana nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. O multicampeão do carnaval carioca disse que não tem “obrigação” ou “responsabilidade” de trazer o tema em seus desfiles.
“Não venham querer me entubar uma responsabilidade e uma obrigação de ter que falar de temas africanos. Não gosto. É uma opinião minha. Não gosto”, disse o carnavalesco da Vila Isabel.
“Eu tenho o direito de pensar dessa forma. O direito é meu. As pessoas falam: ‘nós estamos numa democracia’. Esse é o meu pensamento, sinto muito. Tem umas pessoas que concordam e umas que não concordam. Tem que respeitar a opinião de cada um e eu respeito”, disse ele.
A fala de Paulo Barros causou polemica no mundo do samba, justamente porque esse ano a maioria dos enredos das 12 escolas do Grupo Especial vão abordar ou fazer referência a religiões de matriz africana.
Carnavalesco Paulo Barros comemora desfile da Portela na Sapucaí
Alexandre Durão / G1
Na última segunda-feira (24), Barros disse à Folha de São Paulo que “desfile com temática africana são todos iguais e ninguém entende nada”.
A declaração não caiu bem na bolha do carnaval e muitos criticaram a fala do carnavalesco da Vila Isabel, escola que teve seu maior título em 1988, com o enredo Kizomba, comemorado o centenário da Abolição da Escravatura.
“Tem todo direito de não gostar, mas como carnavalesco da Vila Isabel acho que está na escola errada. Os maiores enredos da Vila foram sobre essa temática… Viva Kizomba! Sou da Vila não tem jeito”, escreveu Marlucia Moraes no Instagram.
Raiz africana
Após a polemica declaração, Paulo Barros decidiu gravar um vídeo em suas redes sociais para debater melhor o assunto. Na ocasião, ele criticou aqueles que acham que o carnaval deve falar de temas africanos só porque o samba teve origem no continente.
“Tem gente que fala que desfile de escola de samba obrigatoriamente tem que ter uma temática africana porque o samba veio da África. Qualquer imbecil sabe disso. Que a raiz do samba, da escola de samba, ela tem essa raiz e esse fundamento, essas temáticas africanas. O carnaval, ao longo de décadas, ele passou a assimilar todos os tipos de enredo e todos os tipos de tema”, analisou Barros.
Paulo Barros
TV Globo
O carnavalesco lembrou que em outros períodos do carnaval os enredos também foram quase monotemáticos. Segundo ele, esse tempo passou.
“Eu lembro muito bem que eu já passei por uma época onde só se falava de política, por épocas onde falava de cidades, onde tínhamos enredos imaginários, como o Ziriguidum 2001, Tupinicópolis, viagens e enredos que são imaginados pelo carnavalesco e que não tem nada a ver com a cultura africana. Até porque o carnaval nos dá essa liberdade”, explicou.
Sobre a influência das religiões de matriz africana no carnaval desse ano, Barros reforçou que não fez críticas a nenhum dos enredos e lembrou que respeita todas as religiões.
“Tenho o maior respeito por todas as religiões. Inclusive, o meu babalorixá, que me assiste, é uma pessoa maravilhosa. Eu tenho a minha mãe de santo e vou. Eu vou a igreja. Eu vou a templos. E respeito todas as religiões”, comentou o carnavalesco.
“Eu não fiz crítica a ninguém. Só disse a minha posição. (…) Ta todo mundo nesse blablabla e na hora do vamos ver, na hora da verdade, começam a falar um monte de m*”, completou.
África na avenida em 2025
A fala de Paulo Barros toca em um ponto sensível para as escolas de samba esse ano. O carnavalesco da Vila Isabel “comprou uma briga” com 9 das 12 escolas do Grupo Especial.
A Vila Isabel, a Mocidade e a Portela são as únicas escolas que não vão abordar a temática afro em seus enredos esse ano.
A Azul e Branco da Zona Norte, sob o comando de Paulo Barros, vai apresentar o enredo “Quanto mais eu Rezo, mais Assombração aparece”. A escola pretende mostrar um passeio de Trem Fantasma na Marquês de Sapucaí, explorando diversos terrores e assombrações do folclore brasileiro e da cultura popular.
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A Mocidade, por sua vez, propõe uma viagem intergaláctica até a estrela guia da escola, explorando temas como o cosmos, o futuro, a tecnologia e a relação entre o homem e a máquina. O enredo é: “Voltando para o Futuro – Não há Limites pra Sonhar”.
Já a Portela fará um desfile em homenagem a Milton Nascimento. A escola busca celebrar os 81 anos do artista e sua contribuição para a construção do povo brasileiro.
Todas as outras agremiações do grupo de elite do carnaval do Rio vão abordar ou fazer referência a religiões de matriz africana.
Para o cantor e produtor cultural Pretinho da Serrinha, que vai comentar o carnaval do Rio na TV Globo, o fato de muitas escolas apresentarem enredos com temática afro é um reconhecimento importante e gera emoção.
“Este ano tem uma coisa diferente, por conta da quantidade de escolas falando de religiões, de África e dos orixás. Para mim, um cara preto, criado no morro, isso tem um ponto diferente, estou muito ansioso pra ver isso tudo. É um reconhecimento por tudo que veio dos nossos ancestrais, dos nossos antepassados. É uma grande emoção ver isso tudo acontecer”, afirmou Pretinho da Serrinha em coletiva de imprensa do Carnaval Globeleza 2025.

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