Das 5 músicas mais ouvidas no país, 3 são medleys ou perto disso. Formato amplia chances de viralizar e proporciona clima de show, até para quem escuta no fone; entenda. Das cinco músicas mais ouvidas do Brasil no Spotify na última semana, três são medleys ou se aproximam muito do formato — incluindo o hit baiano “Resenha do Arrocha”, já alçado a clássico do verão de 2025.
Também chamado de pot-pourri, o conceito tem definição simples: são várias músicas tocadas numa mesma faixa, uma após a outra ou mesmo sobrepostas. Em tempos de atenção diluída, isso ajuda a explicar por que o modelo passou a dominar as paradas musicais brasileiras.
“Resenha do Arrocha” une trechos de dez músicas que já eram sucessos na Bahia, antes de seu lançamento — a maioria, do pagodão, a vertente mais ousada e percussiva do estilo. O mérito do cantor J. Eskine foi identificar os trechos mais grudentos de cada uma dessas faixas, e transformá-los num som dançante de arrocha, mais melódico e palatável para o público, incluindo boas doses de humor e carisma.
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O resultado já ultrapassou os 80 milhões de plays no Spotify. “Essa música mudou tudo na minha carreira. A minha vida mudou também e, logicamente, eu tinha que mudar a vida da minha família. Minha mãe não está mais morando na casa onde a gente cresceu”, disse Eskine, em entrevista ao g1.
Na internet, desde dezembro, quando a faixa foi lançada, a cada dia um novo trecho de “Resenha do Arrocha” é “descoberto”:
O início da letra, que cita o Jogo do Tigrinho, ganhou coreografia e virou fantasia de carnaval;
A frase “calma, vida, tá de boa” se tornou um mantra em posts reflexivos e legendas de fotos;
A parte do “joga no coroa” passou a fazer sucesso em vídeos que exaltam a beleza de homens mais velhos — incluindo o diretor de cinema Walter Salles, 68, do filme “Ainda estou aqui”.
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O fato é que, na corrida pelo sucesso, quem tem mais chances de viralizar larga na frente — um fenômeno especialmente intenso no Brasil, visto por muitos profissionais do marketing como o paraíso do engajamento on-line. Num medley, as chances se ampliam porque há um leque maior de possibilidades para trabalhar.
É um recurso que beneficia “Resenha do Arrocha”, mas também músicas como “Oh Garota Eu Quero Você Só Pra Mim” (Oruam, Zé Felipe, MC Tuto e Rodrigo do CN) e “Fui Mlk” (Nilo, MC Paiva, DJ Di Marques e Kyo). As duas últimas, também presentes no top 5 do Brasil no Spotify, não são exatamente medleys, mas, sem uma letra com narrativa definida, têm pedaços que não necessariamente conversam entre si — funcionam muito bem sozinhos em posts nas redes sociais.
“As músicas, antigamente, iam a pouco mais três minutos. Depois, foram encurtando. Agora, lancei uma música com quase seis minutos. Fiquei na dúvida se as pessoas iam gostar, mas o que acontece é que cada pessoa se identifica com uma parte”, analisa Valesca Popozuda.
Neste mês, ela lançou como aposta para o carnaval “Poesia Cústica”, medley inspirado em “Resenha do Arrocha”, que também se tornou viral nas redes. “Eu já fazia medleys nos meus shows, porque tenho uma quantidade enorme de músicas. Pegamos pedaços de vários hits e vamos encaixando numa faixa só, para conseguir levar tudo que a galera quer e pede.”
Clima de show
Como Valesca, muitos artistas já incluíram medleys em suas performances ao vivo, desde os compositores franceses do século 19. Vários gostavam de abrir suas óperas com um pot-pourri de apresentação.
Nas rodas de samba brasileiras, o formato é uma antiga tradição que perdura em sucessos de bandas como Menos É Mais e Sorriso Maroto, presenças frequentes das paradas. Para grupos de forró eletrônico, que se popularizaram nos anos 1990 através da distribuição de discos, os medleys serviram como recurso para apresentar aos contratantes de shows o maior repertório possível.
Participantes do ‘Poesia acústica #15’ posam no estúdio onde foi gravado o clipe do projeto
Felipe Brabo / Divulgação
Já o rap e o funk consolidaram o cypher, que não é medley, mas tem vários MCs reunidos alternando rimas numa mesma base, como nas rodas de rima organizadas nas ruas. A vertente deu origem a fenômenos de popularidade, entre eles o projeto de rap acústico “Poesia Acústica” e o megahit de trapfunk “Let’s Go 4”, um dos mais ouvidos de 2024.
Pelo histórico em apresentações ao vivo, os medleys — e formatos semelhantes — são capazes de proporcionar um clima de show, ou algo perto disso, mesmo para quem escuta no fone de ouvido. É mais um trunfo que fez o modelo pegar também em projetos de estúdio, como o Lud Session, de Ludmilla.
Ludmilla (à esquerda) e Iza na quarta edição da ‘Lud session’
Steff Lima / Divulgação
Como consequência da tendência, as músicas que chegam às paradas brasileiras estão ficando mais longas, na contramão do pop compacto e acelerado, que se popularizou com a explosão do TikTok, a partir de 2020. Para os artistas, isso cria um dilema, que desafia a tradição dos medleys: como encaixar faixas tão grandes no setlist de um show que, geralmente, tem no máximo duas horas?
“Eu canto a parte que mais viralizou e a minha, mas nunca a música toda”, afirma MC Ryan SP, que participa de “Let’s Go 4” — o projeto tem outras quatro edições. “Imagina! Cantando só as cinco músicas de ‘Let’s Go’ inteiras, já se faz um show de mais de uma hora. Tem que ter molejo no repertório.”
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