Corpo de Victoria Manoelly foi velado no Cemitério Público de Guaianases entre a noite deste sábado (11) e a madrugada deste domingo (12). Justiça converteu prisão do sargento Tiago Guerra em preventiva. Vanessa Priscila dos Santos, mãe da adolescente Victoria Manuelly, de 16 anos, morta por um sargento da Polícia Militar, na Zona Leste de São Paulo.
Reprodução/TV Globo
A mãe da adolescente Victoria Manoelly dos Santos, de 16 anos, que morreu na madrugada de sexta-feira (10) durante uma abordagem policial na Zona Leste de São Paulo, comentou na madrugada deste domingo (12) sobre a prisão do policial militar que atirou contra a jovem.
O sargento Tiago Guerra teve a prisão convertida em preventiva pela Justiça de SP, após a morte da adolescente. Ele já está detido.
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Muito emocionada, Vanessa Priscila dos Santos disse que espera que o PM fique “muito e muitos anos preso” e que pague pelo que fez contra a filha dela.
“Fiquei sabendo que ele está preso. Ele precisa pagar pelo que ele fez, porque não é justo a minha filha pagar por uma coisa que não fez. Pagar com a vida ainda. Mesmo que tivesse feito, ele não tinha o direito de tirar a vida de ninguém. Que ele fique muito e muitos anos [preso]. A gnete não tem mais nada. Só resta saudades e lembranças boas, e ruins também. Porque via a minha filha sangrar até a morte”, disse a mãe da jovem (veja vídeo abaixo).
“Não é justo minha filha pagar com a vida por algo que não fez”, diz mãe de Victoria
O corpo de Victoria Manoelly foi velado no Cemitério Público de Guaianases entre a noite deste sábado (11) e a madrugada deste domingo (12).
O enterro aconteceu às 09h da manhã deste domingo, diante de muita comoção de amigos, familiares e de outras mães que perderam seus filhos para a violência da Polícia Militar na periferia da Zona Leste de São Paulo.
Reunidas no grupo “Mães da Zona Leste”, elas foram prestar solidariedade à mãe de Victória no Cemitério do Lageado.
Durante a madrugada, Vanessa Priscila chorou ao lembrar da filha ainda viva e da saudade que sentirá da jovem.
Tiro que matou jovem de 16 anos saiu de arma de PM
“Ainda não tive coragem ainda de ver ela. Estou aqui o tempo todo, mas ainda não consegui ver a minha filha no caixão. Nem sei se vou conseguir na verdade.”
“Era uma menina super alegre, divertida. Ainda não pensei sobre tudo isso. Não raciocinei sobre. Nem acreditar estou conseguindo. Tá difícil. Ela era muito divertida, gostava muito de brincar. Vaidosa, bastante vaidosa. Gostava bastante de maquiagem e essas coisas…”, disse.
O crime
Jovem de 16 anos morre baleada em SP; família diz que tiro partiu de PM durante abordagem
TV Globo/Reprodução
Segundo as testemunhas, Victoria e o irmão Kauê, de 22 anos, estavam com a mãe e alguns amigos em frente a um bar, na rua Capitão Pucci, em Guaianases, quando um rapaz passou correndo fugindo de alguns policiais que haviam sido acionados para uma ocorrência de roubo.
Em seu depoimento, Kauê contou que um dos policiais voltou e começou a questioná-lo e a irmã. Durante a discussão, o PM o agarrou pela gola da camiseta, apontou a arma para o seu rosto e acertou uma coronhada na sua cabeça. A arma disparou e acertou Victoria.
Victoria Manoelly dos Santos, de 16 anos, que morreu na madrugada de sexta-feira (10) é velada no Cemitério do Lageado, em Guaianases.
Reprodução/TV Globo
Já o PM disse que, ao abordar os dois irmãos, Kauê estava com as mãos na região da cintura e que o rapaz deu um tapa na sua mão para tentar se esquivar. Nesse momento, segundo o policial, sua arma disparou e atingiu a região próxima ao ombro da adolescente.
A mãe dos dois, que estava ali na hora, disse que o filho dizia ao policial não ter relação com a suspeita de roubo. “Só ouvi o tiro, e minha filha jorrando sangue”, contou Vanessa Priscila dos Santos.
Segundo ela, houve demora para socorrer a filha. “Foi muito feio, foi a pior coisa da minha vida, jorrou sangue, e eles [PMs] não levaram, não a socorreram. Pedi pelo amor de Deus. Ajoelhei ao pé do policial pra ele socorrer minha filha. Eles não socorreram. Eles estavam preocupados em colocar meu filho dentro da viatura”.
Victoria chegou a ser levada para o Hospital Geral de Guaianases, mas não resistiu ao ferimento.
Família de Victoria Manoelly dos Santos, de 16 anos, no velório da jovem no Cemitério do Lageado, em Guaianases.
Reprodução/TV Globo
O irmão de Victoria soube da perda da irmã quando foi levado à delegacia pela PM e, ao ouvir da mãe que a jovem havia morrido, desabou no chão em desespero, chorando muito.
Desolada, Vanessa estava inconformada com a situação. “Meu filho não deve nada pra Justiça, não deve nada. Só que tem passagem, né? O erro dele. Tudo isso. Queria tanto que esse tiro fosse em mim, como eu queria, Senhor!”.
Depois de prestar depoimento como testemunha, Kauê foi liberado.
Prisão preventiva
Tiro que matou jovem de 16 anos saiu de arma de PM
Neste sábado (11), a Justiça converteu em preventiva a prisão do sargento da PM Thiago Guerra, de São Paulo, apontado como o responsável por atirar contra a adolescente.
Na decisão, o juiz diz que “trata-se de apuração de crime grave de homicídio que teria sido cometido por agente do Estado treinado para enfrentamento de situações dessa natureza, mas que acabou colocando a sociedade em risco ao descumprir as diretrizes da Polícia Militar, colocando fim à vida de uma adolescente”.
“Evidente, portanto, a necessidade de segregação cautelar para garantia da ordem pública ante a gravidade concreta dos fatos”, ressaltou.
Segundo a Polícia Civil, após analisar as imagens da câmera corporal do policial, o tiro que matou a adolescente de 16 anos saiu da arma do sargento pós ele dar uma coronhada no irmão dela.
No boletim de ocorrência, o delegado Victor Sáfadi Maricato argumentou que, ao ouvir as testemunhas e analisar as imagens da câmera corporal do PM, “há claros e fortes indícios” de que o disparo que matou Victoria Manoelly dos Santos teve origem da arma do sargento Thiago Guerra quando ele bateu com a pistola na cabeça de Kauê.
O delegado ressaltou ainda que dar coronhadas não corresponde “às doutrinas das polícias brasileiras” e que quem faz isso assume riscos do resultado. Por essa razão, indiciou o PM pelo crime de homicídio.
O que diz a Secretaria da Segurança
Procurada pela reportagem, a Secretaria de Segurança Pública lamentou a morte da jovem e disse que “investiga todas as circunstâncias da ocorrência, ainda em andamento. O policial militar foi preso em flagrante e conduzido ao 50º DP onde o caso foi registrado. A Polícia Civil busca imagens que possam esclarecer os fatos”.
E acrescentou: “A Polícia Militar não compactua com excessos ou desvios de conduta e pune exemplarmente aqueles que desobedecem aos protocolos estabelecidos pela Corporação. A arma do policial foi recolhida e as imagens das Câmeras Corporais estão sendo analisadas. Um Inquérito Policial Militar será aberto para investigar os fatos”.
O caso está sendo registrado no 50º Distrito Policial, no Itaim Paulista. O irmão da vítima permanece detido na delegacia, mas a polícia não foi informado o motivo da prisão.