Timothée Chalamet se mostra à altura de interpretar cantor em filme com oito indicações ao Oscar que estreia nesta quinta-feira (27) no Brasil. Com a missão gigantesca de retratar a história (ou parte dela) de um dos cantores americanos mais brilhantes e misteriosos de todos os tempos, “Um completo desconhecido” dedica toda a sua atenção à genialidade de Bob Dylan – e abre mão da pessoa por trás no processo.
Talvez tenha sido a decisão correta. O filme estreia nesta quinta-feira (27) nos cinemas brasileiros com oito indicações ao Oscar 2025 na bagagem.
As grandes atuações de Timothée Chalamet, à altura do astro do folk, e do resto do elenco elevam a cinebiografia acima do formato padrão do gênero e compensam uma obra linda, mas sem qualquer conflito.
Focada em um momento bem específico do começo de sua carreira, a produção pode até introduzir completos desconhecidos (com o perdão da expressão) à obra e importância do cantor, mas deixa um inevitável gosto de quero mais na boca de fãs.
O Dylan do diretor (também indicado) James Mangold (“Logan”) é genioso e genial e introspectivo e rebelde e maior do que a vida – retratado mais como com uma atração importantíssima de um museu que deve ser guardado na redoma mais segura da exposição do que um humano. Algo para ser apreciado e admirado, mas não necessariamente entendido.
Trailer de ‘Um completo desconhecido’, com Timothée Chalamet no papel de Bob Dylan
Quadrado, com coração
O roteiro (mais um a receber uma indicação) de Mangold e Jay Cocks (“Gangues de Nova York”) se baseia no livro “Dylan goes electric!”, de Elijah Wald. Em uma janela de quatro anos, mostra desde seu início como estrela do folk americano – um gênero acústico em sua essência – até sua adoção da guitarra como instrumento.
Filmes do gênero podem em sua maioria ser divididos em dois tipos.
A cinebiografia moderna, sacramentada pelo próprio cineasta no celebrado “Johnny e June” (2008), mostra uma infância difícil, uma adolescência rebelde, um auge regado a drogas e, caso o mundo permita, enfim um pouco de paz. Basicamente, uma fórmula meio enciclopédica da vida do retratado.
Já outras obras, como o incrível musical “Rocketman” (2019), tomam desvios e brincam com formatos, sonhos, delírios e até gêneros. Mais importante que a obra do artista é o sentimento que ele tentou entregar com a carreira.
Edward Norton e Timothée Chalamet em cena de ‘Um completo desconhecido’
Divulgação
“Um completo desconhecido” está mais para um excelente exemplar do primeiro exemplo: mais quadrado, porém eficaz. Por sorte, por vezes coloca o pezinho na água do segundo – graças em grande parte às atuações gigantescas de Chalamet, Monica Barbaro (“Top Gun: Maverick”) e Edward Norton (“Glass onion”), todos indicados.
O trio não só faz jus às figuras lendárias que interpretam (Barbaro como Joan Baez e Norton como Pete Seeger, ambos cantores) com suas atuações, mas também com suas performances vocais.
Chalamet, em especial, faz uma grande versão do extremamente imitável Dylan – mas é ao cantar ao vivo durante as gravações, dispensando o uso de gravações prévias, que o ator eleva de verdade “Um completo desconhecido” do mediano.
Monica Barbaro e Timothée Chalamet em cena de ‘Um completo desconhecido’
Divulgação
Contradições conhecidas
Não deixa de ser irônico que o maior trunfo diferencial de Mangold seja uma técnica testada e usada em “Johnny e June”, que estabeleceu (metaforicamente) o manual atual do gênero.
Há de se reconhecer, no entanto, que faz sentido dentro das contradições de uma obra repleta delas.
No fim, a trama se torna refém da genialidade do próprio protagonista, que cresce, amadurece e se rebela sem qualquer conflito de verdade.
Sua namorada (Elle Fanning) vai embora, sua amante prefere focar nos hits, seu mentor não aprova a mudança de instrumento – nada tem lá muita consequência.
Ainda mais ao saber do tamanho e do reconhecimento de Dylan, um ganhador do prêmio Nobel, 60 anos depois.
Cartela resenha crítica g1
g1
Timothée Chalamet em cena de ‘Um completo desconhecido’
Macall Polay/Searchlight Pictures